Vacinação em doenças reumáticas imunomediadas: principais mensagens das Recomendações 2025 da Sociedade Brasileira de Reumatologia
Vitor Alves Cruz1, Gecilmara Cristina Salviato Pileggi2 e Viviane Angelina de Souza3
- Professor Adjunto de Reumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (UFG).
- Professora Afiliada de Reumatologia da Universidade Federal de São Paulo – Escola Paulista de Medicina (UNIFESP – EPM).
- Professora Associada de Reumatologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Pacientes com doenças reumáticas imunomediadas (DRIMs) apresentam risco aumentado de infecções, em decorrência tanto da disfunção imunológica associada à própria doença quanto do uso frequente de imunossupressores. Apesar do impacto comprovado da vacinação na redução de morbimortalidade por infecções preveníveis, as coberturas vacinais nessa população permanecem abaixo do ideal. Entre os principais entraves estão a hesitação vacinal, o receio de reativação da doença de base e dúvidas quanto à segurança e à eficácia das vacinas em especial para este grupo de pacientes.
Nesse contexto, a Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) coordenou a elaboração das Recomendações 2025 sobre vacinação em adultos com DRIMs, com o objetivo de oferecer orientações práticas, seguras e adaptadas à realidade brasileira. O documento foi desenvolvido por uma força-tarefa de especialistas, com base em revisões sistemáticas da literatura, metanalise e consenso estruturado seguindo a metodologia Delphi, contando com um painel de 20 especialistas, abordando onze questões clínicas centrais relacionadas à segurança e imunogenicidade das vacinas nesse grupo de pacientes. Nesse processo mais de 10000 artigos foram levantados, selecionados pelos painelistas, seguido da extração dos dados cuidadosa para metanalise e estruturação das respostas as 11 perguntas PICO.
De forma geral, as evidências disponíveis demonstram que vacinas inativadas são seguras em pacientes com DRIMs, não estando associadas a aumento clinicamente relevante de flares (reativação da doença de base), e quando ocorreram foram leves e autolimitados. Assim, a vacinação não deve ser adiada por receio isolado de reativação da doença.
As vacinas vivas atenuadas podem ser utilizadas de maneira segura quando administradas antes do início da imunossupressão ou após suspensão temporária e planejada dos imunossupressores, respeitando protocolos específicos.
As vacinas inativadas podem ser administradas durante o uso de medicamentos modificadores do curso da doença sintéticos convencionais (DMARDs) e de imunossupressores clássicos, como azatioprina, micofenolato, ciclosporina e ciclofosfamida. Embora esses fármacos reduzam a imunogenicidade, tal efeito não contraindica a vacinação, uma vez que a proteção clínica real não pode ser estimada pela falta de marcadores de correlato de proteção. De forma semelhante, o uso de corticosteroides em doses baixas não impede a vacinação, ainda que possa haver redução parcial da resposta imune.
Entre as terapias biológicas e alvo-específicas, a maioria dos agentes apresenta impacto discreto sobre a resposta vacinal, permitindo a imunização durante o tratamento. O rituximabe constitui a principal exceção, por reduzir de forma significativa a resposta humoral, sendo recomendada a vacinação antes do início da terapia ou, quando isso não for possível, preferencialmente a partir de seis meses após a última infusão. Inibidores de JAK também podem reduzir a imunogenicidade, mas a vacinação permanece indicada, idealmente antes do início do tratamento.
As recomendações ressaltam que a suspensão temporária de metotrexato, micofenolato ou inibidores de JAK não deve ser adotada rotineiramente com o único objetivo de melhorar a resposta vacinal, considerando o benefício modesto dessa estratégia e o risco potencial de reativação da doença.
No âmbito do calendário vacinal, reforça-se a vacinação anual contra influenza, indicada de forma rotineira para todos os pacientes com DRIMs. Quando disponível e acessível, a vacina de alta concentração pode ser considerada para idosos e indivíduos com alto grau de imunossupressão, mediante decisão compartilhada. Para hepatite B, esquemas intensificados, com dose dobrada e/ou adição de uma quarta dose, podem ser avaliados individualmente, especialmente em pacientes com fatores associados à baixa resposta imunológica e em alta imunossupressão.
As Recomendações de 2026 da Sociedade Brasileira de Reumatologia representam um avanço relevante na consolidação da vacinação como parte indissociável do cuidado integral ao paciente com DRIMs. Ao traduzirem a melhor evidência disponível em orientações práticas, adaptadas ao contexto brasileiro, contribuem para reduzir a hesitação vacinal, ampliar a cobertura e fortalecer a integração entre reumatologistas, infectologistas e demais profissionais envolvidos na imunização. A incorporação sistemática dessas orientações constitui um passo essencial para a prevenção de infecções e a qualificação do cuidado em saúde.
Tabela – Resumo das 11 recomendações da Sociedade Brasileira de Reumatologia (2025) sobre vacinação em doenças reumáticas imunomediadas.
Nº Recomendações
- Vacinas inativadas são seguras em pacientes com DRIMs e não devem ser adiadas por receio de flare.
- Vacinas vivas são seguras quando aplicadas antes da imunossupressão ou após suspensão temporária e planejada dos imunossupressores, conforme protocolos específicos.
- A vacinação pode ser realizada durante o uso de DMARDs sintéticos convencionais, com risco mínimo de efeitos adversos ou flare.
- Imunossupressores como azatioprina, micofenolato, ciclosporina e ciclofosfamida reduzem a imunogenicidade, mas não contraindicam vacinas inativadas.
- Terapias biológicas, exceto rituximabe, exercem impacto discreto sobre a resposta vacinal, permitindo a imunização durante seu uso.
- Rituximabe reduz significativamente a resposta humoral; recomenda-se vacinar antes do início do tratamento ou, se já iniciado, preferencialmente seis meses após a última dose.
- Corticosteroides em doses baixas não impedem a vacinação, embora possam reduzir parcialmente a imunogenicidade.
- Inibidores de JAK reduzem a resposta imune, mas a vacinação permanece recomendada, idealmente antes do início da terapia.
- A suspensão temporária de metotrexato, micofenolato ou inibidores de JAK não é recomendada rotineiramente com o único objetivo de melhorar a resposta vacinal.
- A vacina contra influenza deve ser aplicada rotineiramente; quando disponível, a formulação de alta concentração pode ser priorizada para idosos e pacientes com alto grau de imunossupressão, mediante decisão compartilhada.
- Esquemas com dose dobrada e/ou adição de uma quarta dose para hepatite B podem ser considerados individualmente, com base em preditores de baixa resposta e decisão compartilhada.
Referência: Pileggi GCS, Cruz VA, Medeiros-Ribeiro AC, et al. Brazilian Society of Rheumatology – 2025 recommendations on vaccination in immune-mediated rheumatic diseases. Adv Rheumatol. 2026. doi:10.1186/s42358-026-00520-8.
Apoio:





